Egocentrismo, narcisismo e sedução utilitária nas redes sociais

Redes sociais 1

A cada dia surgem mais interpretações sobre os reflexos das redes sociais na vida das pessoas. Já não é novidade a importância que essas plataformas de visibilidade auferiram nos últimos anos – do ponto de vista financeiro e político, do ponto de vista do comportamento privado e coletivo e esses reflexos tem sido tematizados na produção acadêmica, na roda de bar, no perímetro da cama, nos encontros com os amigos na sala de estar. O impacto sobre processos políticos, sobre formas de cooperação, o tema da privacidade, além das análises de ligações e múltiplas influências – nesse caso com interessantes abordagens matemáticas – podem ser encontradas na internet. Apesar disso, o tom geral sobre as redes tende a uma postura a-crítica muito grande. Tanto que qualquer comentário que questiona a necessidade e naturalidade das redes sociais em nossas vidas é, em geral, encarada de forma com enstranhamento. E isso mesmo vindo de professores de comunicação.

Eu tenho tentando manter uma relação mais distanciada dos mecanismos que rastreiam meu comportamento – ao menos no que me é possível. Por isso deletei minha conta no Facebook – a rede que me parece mais escrota nesse sentido – há uns seis ou sete anos. E, além disso, tenho procurado usar redes baseadas em plataformas livres, como a Diáspora. Mas mesmo aí tem sido de forma muito tímida.

A exploração e monetarização das relações, da intimidade afetiva, dos gostos, da própria vida não são novidades na história do capitalismo. Mas alcançam um nível muito assustador atualmente – basta ler os termos de uso desses serviços. E eu sou daqueles que lêem os termos do serviço. Eles me incomodam, assim como um comportamento que emerge da interação com diversos gadgets e que apontam para uma submissão da atenção à interação nessas redes. O que não é novidade. A atenção é um capital, sempre foi – e agora isso parece ser mais evidente, ou mais monetarizável individualmente.

Também me incomoda o específico comportamento de manada que se pode observar dos usuários – algumas das razões são observadas abaixo. Nesse comportamento de manada, a distinção opera de forma muito especial, pelo enaltecimento do simulacro que em sua diferença e variedade constitue uma fórmula e portanto tende à homogeneização. Tende, não determina.

Recentemente tive contato com uma abordagem sobre a modernidade que permite uma análise das redes sociais em uma perspectiva histórica que me parece interessante. Mais especificamente, do sujeito que se utiliza dessas ferramentas.

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Esse caminho é fornecido pelo ponto de vista de Christopher Lasch, num trabalho muito interessante chamado A Cultura do Narcisismo – A vida americana numa era de Esperanças em Declínio. No livro, que você pode acessar aqui, o autor faz uma análise da estrutura de personalidade do homem da modernidade. Nela, o termo “individualista” não caberia mais, estaria ultrapassado, tendo evoluído para um caráter nacisístico.

O que há de fundamental na interpretação do autor é que o homem da modernidade depende dos outros para a validação da autoestima individual. A necessidade da audiência que o admire, aprove, corrobore e afirme passa a ser um elemento ontológico do caráter moderno contemporâneo.

No resumo, a características do homem moderno segundo Lasch: o “culto da expansão da consciência, da saúde, e do crescimento pessoal”; o “viver para si, não para os que virão a seguir ou para a posteridade” (com o consequente desinteresse pelo futuro e a perda do sentido de continuidade histórica); o “isolamento do eu”; o “culto da saúde mental” o que segundo Lasch equivaleria “à destruição de inibições e à imediata gratificação de qualquer impulso”; a “popularidade do modo confessional”; o “culto da celebridade (escreve o autor: “a mídia dá substânbcia e (…) intensifica os sonhos narcisistas de fama e glória, encoraja o homem comum a identificar-se com as estrelas e a odiar ‘o rebanho’ e torna cada vez mais difícil (…) aceitar a banalidade da existência cotidiana”); a “crença de que a sociedade não tem futuro” (o que é de se esperar mesmo, visto a “incapacidade narcista de identificar-se com a posteridade ou de sentir-se parte do fuco da história”; a “necessidade neurótica do afeto” (afinal, egocentrismo resulta e solidão); a “corrupibilidade de valores”; a organização da vida privada “de acordo com as exigências das grandes organziações” (como horários, linguagens, posturas, festas com o objetivo de ampliar a rede de contatos, etc.

O que me chama mais atenção nessa tipologia é o que o autor chama de “modo confessional” de expressão, vinculado a estratégias de “sedução calculada”. Jean Bauldrillard é um dos caras que analisou a “sedução” ou o simulacro de sedução. Não se trata do processo dialógico, relacional de se seduzir a quem se ama ou a quem se deseja em que acontece a doação e a troca afetiva, pessoal e emocional. Trata-se de uma sedução unilateral, mecânica, distanciada, funcional e intencional a um ou a vários benefícios próprios.
O Outro dessa sedução é um objeto utilitário, fornecedor do benefício ou serviço desejado – reforço emocional, reafirmação do ego, aprovação do caráter que se constrói (ou se evidencia) em público.

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O ponto de partida dessa interpretação de Lasch é claro: o individualismo que demarca a modernidade – e também a “liberdade”, “igualdade” e “autonomia”: metas civilizatórias que todos devemos buscar o máximo possível mas que ao mesmo tempo são premissas abstratas que não são fatos concretos, naturais, consensuais, suficientes e absolutos. Na verdade são diretrizes que precisam ser submetidas ao pensamento crítico. E campos de disputa.

Pois essa lógica da sociedade moderna pode levar à autodestruição dessa mesma sociedade por intermédio de uma racionalização que se autonomiza em relação aos homens. Nessa interpretação, os homens assumem a posição de peças descartáveis em uma engrenagem social que se complexifica progressivamente mas que também alcança níveis cada vez maiores de autosuficiência. Esse cenário, ainda que distopicamente tratado, tem sido cada vez mais presente no cinema roliudiano – a trilogia Matrix, The Congress, Proteus, Thye Machine, Her, The Thirteenth Floor, a série Black Mirror, Dredd, The Bothersome man, entre outros.

Mas isso já é assunto para outro post, outro dia.

Uma deficiência da interpretação do sujeito da modernidade de Lasch aplicada às interações nas chamadas redes sociais é o fato de acabar sendo homogeneizante. Nem todo mundo que usa desses ambientes pode ser enquadrado no caráter do sujeito moderno tal qual descrito acima. Além disso, se pensarmos o conjunto de interações e de redes como um sistema, ele tem fraturas que podem e efetivamente são ocupadas por discursos em linha de fuga.

Até que poto eles são subsumidos é outra história que não cabe nesse post também.

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Para Louis Dumont existem sociedades compostas por homens que se julgam iguais e livres. São as chamadas sociedades do Homo aequalis. “Iguais” remetendo a noções de igualdade e de oportunidades homogêneas, de mesma hieraquia perante a lei. “Livres” no sentido vinculado a noções de ‘livre iniciativa ‘livre arbítrio’, ‘livre mercado’. Portanto esse homem se caracteriza por ser um indivíduo independente, autônomo e por conseguinte essencialmente não social, portador (depositário) de nossos valores supremos e que se encontra em primeiro lugar em nossa ideologia moderna do homem e da sociedade.

Alguns outros elementos configuram o tempo moderno, segundo Louis Dumont: a modernidade seria constituida de 1) fatos objetivos – passíveis de instrumentalização e que por isso são fatos sem sujeitos; 2) fatos econômicos – a expressão acabada do individualismo e 3) a modernidade é perpassada por uma visão de mundo individualista, de valorização da liberdade e da autonomia do indivíduo que negligencia/subordina a totalidade do social.

Nessa configuração a relação dos homens com as coisas é mais importante do que a relação entre os homens. Os indivíduos se veem como singulares: “centrados, coesos, unos e indivisíveis”. O que me parece interessante também como elemento de uma estratégia para a análise não do sujeito moderno que usa das redes sociais, mas dos comportamentos que exigem uma abordagem nesses termos.

* Entendidas como plataformas de visibilidade em rede.

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