Pesquisas condenam Projeto Novo Recife

 

Luiz Carlos Pinto
lula_pinto@riseup.net

Afora os questionamentos legais e éticos do Projeto Novo Recife, pouca gente tem dado atenção aos estudos sobre os impactos do empreendimento. Ao menos duas pesquisas, concluidas e publicadas no primeiro semestre deste ano, confirmam o prejuízo ambiental, urbanístico e cultural que o empreendimento pode causar à capital de Pernambuco. Em ambos os estudos – uma dissertação de mestrado e uma tese de doutorado – se verifica que a intervenção pretendida pelo Consórcio Novo Recife é prejudicial aos moradores. Os estudos prevêem aumento da temperatura do centro, acúmulo de partículas poluentes, além da perda de ventilação imposta pela altura das 12 torres de até 40 andares previstas, limitação da mobilidade urbana no centro, restrição do acesso à paisagem e apagamento de elementos históricos do perfil da cidade.

A pesquisa intitulada “Influência da forma urbana na ventilação natural: um estudo de caso no Cais José Estelita, Recife”, defendida em maio deste ano Joana Pack Souza, teve como objetivo principal analisar as modificações que ocorrem na ventilação natural a partir da alteração da forma urbana. O trabalho considerou especificamente as implicações do adensamento construtivo sobre a ventilação urbana no bairro de São José (Recife), onde está localizado o Cais José Estelita.

Com base em seis modelos de ocupação urbana do Cais, a pesquisadora concluiu, principalmente, que os edifícios-garagem formam uma grande barreira contínua ao nível do pedestre, reduzindo a taxa de renovação do ar e criando, consequentemente, um calor excessivo e um grande acúmulo de fragmentos poluidores. Ou seja, gera-se mais calor num ar mais poluído. Além disso, a grande barreira construída faz com que o vento seja canalizado para as ruas transversais. Por conta disso, nessas áreas, o pedestre se submetido a ruas desaconfortáveis – não porque o calçamento está esburacado. É que o vento nessas ruas será muito forte, além do que já verificado em ruas contíguas dos pontos mais adensados do bairro de Boa Viagem, por exemplo.

Para chegar a esses resultados, a pesquisa passou por duas etapas. Primeiramente, foi feito um estudo bibliográfico sobre urbanismo bioclimático, sustentabilidade, forma urbana e ventilação natural no meio urbano. Em seguida, foi executada uma pesquisa experimental com simulação computacional dos seis modelos de ocupação urbana do Cais José Estelita para entender quais seriam os mais propícios e benéficos ao conforto térmico e à ventilação da cidade. Esses modelos apresentaram variação dos afastamentos e da altura dos edifícios. No modelo que permite melhor temperatura e ventilação, os prédios são mais afastados um do outro. Além disso, a simulação indica ainda a necessidade de afastamentos verticais, ou seja, com pilotis e pavimentos vazados.

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A imagem seguinte resume o trabalho da pesquisadora Joana Pack Souza:

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Um outro conjunto negativo de impactos foi identificado na pesquisa da professora Vera Lúcia, cuja tese de doutorado foi defendido em fevereiro desse ano. A pesquisadora salienta o isolamento que o desenho do Projeto Novo Recife cria – uma ilha verde separada do bairro de São José por um muro de 700 metros de comprimento. Nos dois extremos do empreendimento estão edifícios empresariais, comerciais, hotéis e flats. No miolo, protegido por estes extremos, os edifícios residenciais. Esse arranjo pode ser verificado nessa imagem:

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As construções circuladas em vermelho são os edifícios comerciais. Esse desenho e o muro de contenção na parte de trás do empreendimento impedem a conexão entre o centro e a zona sul. O aproveitamento da área poderia, entre outras coisas, permitir um fluxo de comunicação entre as duas regiões da cidade, reduzindo percursos e minimizando os efeitos do trânsito no centro. Trânsito esse que é considerado o pior do Brasil segundo o Índice de Trânsito global, produzido pela empresa especializada TOM 2. Esse foi o primeiro ano em que a pesquisa estabeleceu um índice para o Brasil e nele a cidade do Recife ficou em primeiro lugar como o pior trânsito do País.

Essa situação pode piorar e muito, sobretudo no Centro-sul da capital graças ao Projeto Novo Recife. A população residente prevista, segundo o Memorial Justificativo do empreendimento, é de quase 16 mil pessoas, e a população flutuante, de 75 mil. O empreendimento contará com 810 unidades residenciais e exatamente 5.072 vagas para carros, somando todas as quadras. São previstas, segundo o estudo de impacto viário, 12.715 viagens de carro por dia, com até 1.700 carros nos horários de pico na direção mais movimentada do dia.

A piora do trânsito é um efeito mais evidente do que o impacto na paisagem, identificado na pesquisa de Lúcia Veras. A arquiteta e urbanista identificou que o projeto é uma forte agressão ao maior acervo de bens tombados do Recife, que ficam justamente nos bairros de São José e de Santo Antônio – um total de 15 imóveis tombados, protegidos por Lei Federal e 10 protegidos por Lei estadual. A Igreja de São José, Igreja e Convento de Nossa Senhora da Penha, Igreja de Nossa Senhora do Livramento e Prédio do Diário de Pernambuco não são tombados ainda.

O conjunto de bens imóveis tombados forma a Zona Especial de Preservação do Patrimônio Histórico-cultural (ZEPH) e é protegido por lei. Essa ZEPH fica imediatamente atrás da borda do Cais José Estelita, depois da Praça Sérgio Loreto até o Palácio do Campo das Princesas, sem no entanto, chegar às bordas do Cais José Estelita. Isso significa que a histórica relação da cidade com suas águas não foi contemplada na definição desta ZEPH cujos limites não chegam ao estuário. Sem a proteção patrimonial e com a permissão dos parâmetros da LUOS/1996, iniciou-se o processo de verticalização da borda.

“Sem a proteção patrimonial e com a permissão dos parâmetros da LUOS/1996, iniciou-se o processo de verticalização da borda. O Projeto Novo Recife encobre definitivamente a visibilidade do Sítio Histórico desses dois bairros – incluindo as principais igrejas barrocas da cidade. A partir das águas do estuário, essa é a última visão que se guardava do Recife tal como pintado por Frans Post no Século XVII”, afirma. “A escala das torres é indecente do ponto de vista da arquitetura, da forma e da ética”, complementa a pesquisadora.

Este Conjunto Edificado está inserido na ZEPH São José/Santo Antônio (Zonas Especiais de Preservação do Patrimônio Histórico-cultural), o que o torna protegido por lei. Esta ZEPH está imediatamente atrás da borda do Cais José Estelita, depois da Praça Sérgio Loreto até o Palácio do Campo das Princesas, sem chegar às bordas do Cais José Estelita. Portanto, a histórica relação da cidade com suas águas não foi contemplada na definição desta ZEPH cujos limites não chegam ao estuário. Sem a proteção patrimonial e com a permissão dos parâmetros da LUOS/1996, iniciou-se o processo de verticalização da borda, que inclusive poderá encobrir definitivamente a visibilidade do Sítio Histórico de São José e Santo Antônio a partir das águas do estuário, última visão que se guardava do Recife pintado por Franz Post no século XVII e das igrejas barrocas dos séculos posteriores

Lúcia Veras ainda identificou que o Projeto Novo Recife esconde a real altura das torres e além disso, em seu material de publicidade, introduz uma linha de morro inexistente que atenua o seu impacto visual. Lúcia Veras comparou o material publicitário com o real gabarito das torres, que pode ser visto nas imagens abaixo.

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Na primeira imagem, prouzida pela pesquisadora, as torres são colocadas em seus reais tamanhos, sem a linha de morro inserida na segunda imagem (que realmente não existe), criada pelo Consórcio Novo Recife. “Do século XVII ao início do século XXI, o Recife manteve no conjunto da paisagem de seu centro histórico o mesmo perfil que caracterizava o seu horizonte. O moderno encostado ao antigo submetia-se à ordem do visível, definido por um gabarito só quebrado em 2005 com a construção dos dois altos e modernos edifícios. Esta era uma legítima Paisagem-postal recifense”, afirma a pesquisadora.

O impacto visual produzido pelo Projeto Novo Recife traz prejuízo à memória coletiva da cidade. “É tão danoso e estranho que torna toda a cidade preexistente rodapé dos novos empreendimentos. Com esta verticalização, achata-se tudo que está por trás e cria-se uma outra referência que não é a do velho Recife, é além-mar, além do nosso horizonte. Quando digo isso me refiro a um horizonte vertical ob-scenus, que significa a criação de um’ lugar fora do lugar’, descolado da paisagem que o acolhe, como se esta fatia de solo do ‘Novo Recife’ pertencesse a outros territórios”.

Um outro aspecto identificado pela pesquisadora é que o Projeto Novo Recife impede o chamado uso misto, uma das condições para que uma rua seja atrativa para se caminhar e trazer vida ao lugar. O uso misto oferece diferentes atividades comerciais e de serviços que poderão promover o deslocamento das pessoas, a ocupação das calçadas, o delizar do olhar pelas vitrines e o entra e sai do movimento dos que compram e dos que vendem. Diferentes usos ao longo de uma quadra, para que seja uma cidade para pessoas, uma cidade animada pela vida urbana na relação entre o espaço público e o espaço privado.

“Isto é exatamente o que não se propõe no Projeto Novo Recife que não procurou entender nem mesmo o lugar onde se insere, onde a vida ‘animada’ já palpita no vuco-vuco de São José e de Santo Antônio”, afirma a pesquisadora. “Imagine agora uma distância de cerca de 700 metros entre os dois extremos sem qualquer interação entre os espaços públicos e privados. É um espaço morto, sem vida urbana”, finaliza Lúcia Veras.

 

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