Monthly Archives: Março 2015

A diva e a política

 

Iceberg

Não é que a ponta do iceberg da indigência de nossa politica essa semana tomou a forma de uma sobremesa? O incidente deixa claro a forma contumaz como a elite pernambucana e brasileira em geral não aceita a crítica. A suspensão do direito à voz é a suspensão do exercício da política, do desentendimento e da troca de ideias entre iguais.

Não é por acaso que a investida do chef Douglas Van der Ley contra  a autora do blog que critica uma sobremesa feita por ele tenha sido do jeito que foi. O argumento do chef nega a legitimidade do comentário da autora do blog, desqualifica suas habilidades e recursos para avaliar a genial criação, desautoriza o lugar de onde se expressa a moça e desconhece seu percurso de vida. A versão calórica do ‘pobre não sabe votar’, ‘eleitor não sabe votar’, ‘nordestino não sabe votar’, do ‘negro deve usar serviço de elevador’, ‘mulher deve calar’, ‘mulher merece apanhar’, ‘mulher pediu para ser violentada’, ‘gay não é normal, precisa ser tratado’, ‘excluído por que quer, todo mundo tem chance de se dar bem’, ‘ nordestino não sabe falar’. A lista cabe num país.

Todas essas afirmações, e também a posição do chefe der Ley, têm em comum a suspensão da política e seu enquadramento como coisa desnecessária. E de outro lado, a defesa de uma distinção baseada no supostamente exclusivo e naturalmente restrito. Mas isso só é obsceno agora, que o bolo (ou é torta) foi parar no ventilador.

Tenho certeza que a violência dessas distinções presentes no espaço gourmet onde foi servido prato são diariamente mascaradas pela peculiar cordialidade que nos é característica. Nessa “civilidade há qualquer coisa de coercitivo – ela pode exprimir-se em mandamentos e em sentenças”*.

Isso também vale para a política institucional, cujo exercício foi sequestrado pelos homens e mulheres que conduzem o liberalismo triunfante que nos governa.

Isso vale para a ideia da comunicação social – cujos produtos mais criativos vem progressivamente sendo realizados do lado de fora das empresas que se submeteram a dar sentido ao liberalismo triunfante que nos governa. Claro que há os heróis e heroínas batalhando de cabeça erguida nesse circuito e produzindo coisas lindas e relevantes.

Isso também vale para os sujeitos individuais ou coletivos que um dia se perfilaram entre as fronteiras das ideologias libertárias e que hoje se submeteram a dar sentido ao liberalismo triunfante do nos governa.

Isso também vale para os educadores individuais ou coletivos que abandonaram a alegria de aprender com seus companheiros em sala de aula, na rua, no ônibus e se submeteram a dar sentido ao liberalismo triunfante que nos governa.

Não acho que é só uma sobremesa.

  • Sérgio Buarque de Hollanda, em Raízes do Brasil, Capítulo O Homem Cordial