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Aulão no CAC da UFPE discute Ocupação do Cais José Estelita #ocupeestelita

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O primeiro aulão da Universidade Federal de Pernambuco para discutir aspectos da ocupação do Cais José Estelita foi um sucesso. Cerca de trezentas pessoas, entre estudantes, funcionários e professores da UFPE pararam entre as 16h e as 19h no hall de entrada do Centro de Artes e Comunicação para ouvir análises de urbanistas e arquitetos sobre o Projeto Novo Recife; também foi a oportunidade para que alguns acampados – a maior parte estudantes da instituição – compartilhassem suas experiências. A ocasião ainda serviu para a projeção de imagens gravadas durante o ataque do Batalhão de Choque que removeu os acampados do pátio interno do Cais, no dia 17 de Junho.

O aulão foi uma oportunidade para esclarecer diversos aspectos dos impactos causados pela iniciativa do Consórcio Novo Recife, bem como articular interessados em contribuir com o movimento. Ao longo das diversas manifestações dos pesquisadores ao menos duas chamaram mais a atenção. A professora Lúcia Vaz, do departamento de arquitetura, apresentou alguns resultados de sua tese de doutorado, recém-finalizada, sobre os ipactos causados à baisagem do Bairro de São José e de Santo Antônio. Segundo a professora, o Projeto Novo Recife é nocivo aos bairros do centro-sul por quatro aspectos principais.

“Em primeiro lugar o desrespeito e a agressão arquitetônica com o sitio histórico. Infelizmewnte o Plano DIretor da cidade permite que se vertizalize naquela área, que possui o maior acervo barroco da cidade. Além disso é a região da capital que possui maior acervo arquitetônico do início da cidade”, afirma.

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Um segundo aspecto levantado pela pesquisadora é a escala urbana que o Projeto Novo Recife impõe. “O gabarito (altura dos prédios) é indecente do ponto de vista da arquitetura, da forma, da visibildiade, da morfologia, do conforto térmico e da ética”, explica. Um terceiro aspecto problemático, segundo a professora é o uso e a apropriação pública do espaço urbano. “Não há uso misto previsto realmente no Projeto Novo Recife. Uso isto é o que encontramos no Bairro de São José, onde você encontra habitações, comércio, bancos, escola. O uso misto ou o que o Consórcio nomeia como tal é formado por hotéis fechados, não existe salvaguarda pública do espaço. Qualquer pessoa pode até se enganar com a quantidade de área verde disponível, mas toda ela é cercada, servindo assim mais ao edulcoramento das habitações privadas previstas no Projeto original”.

A professora ainda salientou que o Projeto Novo Recife não leva em consideração as conexões com a malha urbana. “Para entender isso é fácil. Quando visitamos a casa de alguém nós devemos respeitar essa casa. O que nós temos aqui é uma casa com quatro séculos com aspectos pedculiares de sociabilidade, habitação e mobilidade que não estão sendo respeitados pelo Consórcio.

Já o professor Tomás Lapa questionou o processo de esvaziamento das instâncias de planejamento da prefeitura. Segundo ele, esse é um projeto que se verifica nos últimos 10 anos e que na atual gestão se consolidou. “Como é possível que projetos dessa natureza (Novo Recife) não sejam trataod por uma Secretaria de Planejamento, mas por uma Secretaria de Mobilidade? É a maior expressão da falta de planejamento pública, que passa a ser tocada pela inciativa privada, afirmou.

Sobre esse quesito, o professor foi mais longe:

“Se antes a estratégia do capital imobiliário era de promover uma ocupação num ritmo acelerado, lote por lote, as operações passam a ser agora mega-operações. Eles não se contentam mais com o lote a lote que a legislação antes favorecia. Eles agora querem trabalhar com as glebas remanescentes. As glebas que restaram do território urbano: o quadrilátero do bairro de Santo Amaro, a vila Naval em Olinda, a arena do Sport, a Ilha do Zeca. São áreas vizadas pelo capital imobiliário que atualmente são objetos de mega-operações”, afirmou.

#ocupeestelita: democracia em cheque na cidade do Recife

(escrevi esse artigo há duas semanas para a Carta Maior, por isso está um pouco desatualizado)

Mídia Ninja

Mídia Ninja

Em 2014 a cidade do Recife está expondo de maneira tão virtuosa quanto inesperada o escândalo da separação entre desenvolvimento capitalista e democracia. O front que explicita essa dissociação – marca da história brasileira em geral e a da capital pernambucana em particular –, é a destinação de uma área de 10 hectares (o Cais José Estelita, na bacia do Pina, no centro da cidade), para ser usado em um empreendimento imobiliário orçado em R$ 800 milhões e que prevê a construção de 12 torres com até 40 andares. O Projeto Novo Recife, tocado pelo Consórcio Novo Recife (formado pelas construtoras Moura Dubeux, Queiroz Galvão, G.L. Empreendimentos e Ara Empreendimentos), é objeto de cinco ações judiciais que questionam sua legalidade. Mas o debate no momento já está para além da questão urbana e da saúde futura da cidade. Esse front expôs o círculo vicioso da velha política em Pernambuco: o uso da violência institucionalizada na defesa de interesses privados e de fins políticos particularistas, sem receio de se identificar com formas autocráticas de autoprivilégio em detrimento do interesse público.

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