Monthly Archives: Abril 2014

O capitalismo é um objeto de alta abstração; o comum é uma força de abstração maior #commons #capitalism

Vou começar hoje a reproduzir um recente trabalho feito pela turma da Universidade Nômade: a tradução das Sete Teses sobre marxismo e aceleracionismo de Mateo Pasquinelli. A tradução foi feita por Aukai Leisner e todo o conjunto da obra pode ser encontrada aqui.

Tese 1. O capitalismo é um objeto de alta abstração; o comum é uma força de abstração maior.

A noção marxiana de trabalho abstrato identificou o mecanismo profundo do capitalismo, isto é, a transformação do trabalho em equivalente geral. Mais adiante, Sohn-Rethel (1978) enxergou a relação estreita entre a abstração da linguagem, a abstração do mercadoria e a abstração do dinheiro.

Na introdução dos Grundrisse, Marx (1867) explica a abstração como a metodologia que aparecerá dez anos mais tarde no Capital (1867). Em Marx, o concreto é um resultado, o produto do processo de abstração: a realidade capitalista e, especificamente, a realidade revolucionária, é uma invenção: “O concreto é concreto porque concentra muitas determinações, daí a unidade do diverso. Ele aparece no processo do pensamento, portanto, como um processo de concentração, como um resultado, não como ponto de partida, mesmo que seja o ponto de partida na realidade e, portanto, também o ponto de partida da observação e concepção”. (Marx 1857 : 101).

A abstração é ao mesmo tempo a tendência do capital e o método do marxismo. Então o marxismo autonomista tomou posse da abstração e “bordou-a de novo no macacão do operário”: a abstração como o movimento do capital, mas também como o movimento de resistência a ele. Negri (1979: 66) particularmente colocou a abstração no centro do método da tendência antagonista, como um processo de conhecimento coletivo: “o processo de determinação abstrata está dado inteiramente nessa iluminação proletária coletiva: é portanto um elemento de crítica e uma forma de luta”. A idéia do comum nasceu como um projeto epistêmico.

Rótulo clássico de cachaça

La mala hora

Gabriel Garcia Marquez

A morte de Gabriel Garcia Marquez me lembrou uma fase de minha infância. Naquele tempo, Arcoverde e todo o Sertão eram uma terra em que o sinal de tv chegava somente no domngo. Ao menos a tv que nos interessava, a Globo e seus desenhos Disney. O ônibus ao Recife só chegava e partia às quartas e sábados. A alternativa era viajar numa rural – um jeep Toyota adaptado a cada dois dias. Essa época ainda viu os cacheiros viajantes e foi a um desses que meu pai e minha mãe compraram a coleção completa do escritor. Aquele mundo incrível , difícil de classificar – embora tantos classificadores tenham gasto papel e tinta com isso – não assombrou meus pais e eu entendo a razão, mas isso não vem ao caso. Ler e gostar daquele mundo foi minha primeira expressão de autonomia em relação aos meus pais. Aos poucos eu deixava a barra da saia de minha mãe e a expectativa de aprovação de meu pai. A coleção, que além dos clássicos incluia ainda livros mais cursos como La mala hora, Ninguém escreve ao Coronel, A incrível e triste história da Cândida Erêndira e sua avó desalmada, os Funerais da Mamãe Grande, Crônica de uma Morte Anunciada, me cativaram desde o início. Fiquei com a coleção depois que meus pais se separaram, que nos mudamos, crescemos, morremos e nascemos várias vezes, até que hoje, por uma conjugação que me parece improvável, os livros sumiram da estante, não sei dizer direito por qual razão, nem quando, nem como, nem por mãos de quem. Será que Gabriel os levou?

Egocentrismo, narcisismo e sedução utilitária nas redes sociais

Redes sociais 1

A cada dia surgem mais interpretações sobre os reflexos das redes sociais na vida das pessoas. Já não é novidade a importância que essas plataformas de visibilidade auferiram nos últimos anos – do ponto de vista financeiro e político, do ponto de vista do comportamento privado e coletivo e esses reflexos tem sido tematizados na produção acadêmica, na roda de bar, no perímetro da cama, nos encontros com os amigos na sala de estar. O impacto sobre processos políticos, sobre formas de cooperação, o tema da privacidade, além das análises de ligações e múltiplas influências – nesse caso com interessantes abordagens matemáticas – podem ser encontradas na internet. Apesar disso, o tom geral sobre as redes tende a uma postura a-crítica muito grande. Tanto que qualquer comentário que questiona a necessidade e naturalidade das redes sociais em nossas vidas é, em geral, encarada de forma com enstranhamento. E isso mesmo vindo de professores de comunicação.

Eu tenho tentando manter uma relação mais distanciada dos mecanismos que rastreiam meu comportamento – ao menos no que me é possível. Por isso deletei minha conta no Facebook – a rede que me parece mais escrota nesse sentido – há uns seis ou sete anos. E, além disso, tenho procurado usar redes baseadas em plataformas livres, como a Diáspora. Mas mesmo aí tem sido de forma muito tímida.

A exploração e monetarização das relações, da intimidade afetiva, dos gostos, da própria vida não são novidades na história do capitalismo. Mas alcançam um nível muito assustador atualmente – basta ler os termos de uso desses serviços. E eu sou daqueles que lêem os termos do serviço. Eles me incomodam, assim como um comportamento que emerge da interação com diversos gadgets e que apontam para uma submissão da atenção à interação nessas redes. O que não é novidade. A atenção é um capital, sempre foi – e agora isso parece ser mais evidente, ou mais monetarizável individualmente.

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Uma Marianne negra no Brasil de Jean Baptiste Debret?

JEAN BAPTISTE DEBRET (1768-1848): Pano de boca executado para representação extraordinária no teatro da côrte,   por ocasião da coroação do Imperador D. Pedro I  Acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin-USP

JEAN BAPTISTE DEBRET (1768-1848): Pano de boca executado para representação extraordinária no teatro da côrte, por ocasião da coroação do Imperador D. Pedro I. Acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin-USP

Por Heloisa Pires Lima*

Uma das imagens que compõem o retrato social disponível na obra de Jean Baptiste Debret Voyage pittoresque et historique au Brésil ou Séjour d’un artiste français au Brésil, depuis 1816 jusqu’en 1831 inclusivement (1834-1839) será o foco deste artigo[2]. Trata-se da mulher negra na estampa 49 do terceiro volume [Figura 1]. A imagem celebra a coroação de D. Pedro I que dá continuidade ao regime monarquista na América[3].

Posicionada à esquerda do leitor da cena, a figura lembra o protótipo de Marianne, símbolo da República francesa. A associação se deve, especialmente, ao adorno de cabeça. Seria um bonnet phrygien? Na França, a peça significando liberdade foi código de adesão ao novo regime durante a Revolução (1789) e detalhe significativo na alegoria feminina. Numa perspectiva antropológica, a representação dos habitantes negros no livro referido fornece elementos para se discutir a aproximação, ou não, ao ícone francês.

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Mais um teste com novo visual

Tá sendo difícil, numa semana de entrega de roteiros encomendados, aplicação de provas e entrega de resumo de artigo pensar de forma mais organizada e sistemática no que o site vai conter. De qualquer forma tem sido interessante observar como não tenho mais saco para me afundar nas linhas do HTML e na marra fazer as modificações, como aliás eu fazia antes. Interessante porque ao mesmo tempo reconheço que isso faz parte do curso das coisas. Agora os interesses são outros e quase que naturalmente tô amarradão neles.

Pensando em inaugurar uma seção de resenhas de livros, outra sobre ciclismo (reforma e bikes antigas) e uma outra sobre SciFi. Vamos ver…