Category Archives: Imanências

Segurança não é crime | Security is not a crime

Mensagem enviada pelo RISEUP

 

https://help.riseup.net/pt/security-not-a-crime

Na terça-feira, 16 de dezembro, uma grande operação policial ocorreu no Estado Espanhol. Catorze casas e centros sociais foram invadidos em  Barcelona, Sabadell, Manresa e Madrid. Livros, panfletos e computadores  foram apreendidos e onze pessoas foram presas e enviadas para a  Audiência Nacional, uma corte especial que cuida das questões de “interesse nacional”, em Madrid. Eles são acusados de incorporação, promoção, gestão e pertencimento de uma organização terrorista. No  entanto, os advogados de defesa denunciaram a falta de transparência,  dizendo que seus clientes tiveram que dar declarações sem saber pelo que  estavam sendo acusados. “[Eles] falam de terrorismo sem especificar os  atos criminais concretos ou fatos concretos individualizados atribuídos a  cada um deles.”[2] Quando questionado sobre isso, o Juiz Bermúdez respondeu:”Eu não estou investigando atos específicos, eu  estou investigando a organização e a ameaça que ela pode representar no  futuro”[1]; tornando assim mais um caso de prisões aparentemente preventivas.

Quatro detidos foram soltos, mas sete estão presos aguardando o julgamento. A razão dada pelo juíz para continuar a detenção deles inclui a posse de certos livros, “a produção de publicações e formas de comunicação” e o fato de que os réus “usam emails com medidas extremas de segurança, como  o servidor RISE UP”[2].

Nós rejeitamos esta criminalização kafkiana dos movimentos sociais e a implicação ridícula e extremamente alarmante de que proteger a sua privacidade na internet seja equivalente à terrorismo.

O Riseup, assim como qualquer outro provedor de email, possui a obrigação de proteger a privacidade de seus usuários. Muitas das “medidas  extremas de segurança” usadas pelo Riseup são boas práticas comuns para a segurança online e são também usadas por provedores como hotmail, GMail ou Facebook. Entretanto, diferentemente desses provedores, o Riseup não está disposto a permitir a instalação de backdoors ilegais ou a vender os dados dos usuários para terceiros.

O relatório do Parlamento Europeu sobre o programa de vigilância da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos afirma que “a  privacidade não é um direito de luxo, mas a pedra fundamental de uma  sociedade livre e democrática”[3]. As revelações recentes sobre a extensão da violação pelos Estados do direito de todos à  privacidade mostra que tudo que puder ser espionado será espionado[4].  Além disso, nós sabemos que a criminalização das pessoas por usarem  ferramentas de privacidade também tem um efeito paralisante em todo  mundo e, em especial, nos defensores de direitos humanos, jornalistas e  ativistas. Abrir mão do seu direito básico à privacidade por medo de ser  marcado como um terrorista é inaceitável.

[1] https://directa.cat/actualitat/pandora-empresonada
[2] https://directa.cat/jutge-gomez-bermudez-envia-preso-set-de-onze-persones-detingudes-durant-loperacio-pandora
[3] http://www.europarl.europa.eu/sides/getDoc.do?pubRef=-//EP//NONSGML%2BCOMPARL%2BPE-526.085%2B02%2BDOC%2BPDF%2BV0//PT
[4] http://www.spiegel.de/international/germany/inside-the-nsa-s-war-on-internet-security-a-1010361.html

 

Executivo integrante de Consórcio Novo Recife é preso #OcupeEstelita

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Hoje, Ildefonso Colares Filho, diretor-presidente da Queiroz Galvão, uma das empresas integrantes do Consórcio Novo Recife foi preso durante a sétima fase da Operação Lava Jato. A operação investiga um suposto esquema de lavagem de dinheiro que teria movimentado R$ 10 bilhões, segundo a Polícia Federal. Um total de 18 pessoas foram detidas e 300 agentes federais foram mobilizados. Além Ildefonso, também foi preso preventivamente (5 dias) outro executivo ligado ao grupo Queiroz Galvão: Othon Zanoide de Moraes Filho Diretor-geral de Desenvolvimento Comercial da Vital Engenharia, empresa sediada no Rio de Janeiro.

O executivo da Queiroz Galvão e os demais responderão pelos crimes de organização criminosa, formação de cartel, corrupção, fraude à Lei de Licitações e lavagem de dinheiro – isso, em função de suas participações no esquema.

O diretor-presidente da Queiroz Galvão responde a essas quatro acusações e também por uso de documento falso. De acordo com os mandados, eles ficarão presos por cinco dias contados a partir da apresentação à autoridade policial. Além dele, também foi preso preventivamente (5 dias) outro executivo ligado ao grupo Queiroz Galvão: Othon Zanoide de Moraes Filho Diretor-geral de desenvolvimento comercial da Vital Engenharia, empresa sediada no Rio de Janeiro.

Além do diretor-presidente da Queiroz Galvão, foram presos os presidentes da construtora Camargo Correa, Dalton dos Santos Avancini e da OAS, José Aldemário Pinheiro Filho.

A Queiroz Galvão também foi objeto de mandato de busca e apreensão em sua sede – procedimento que realizado ainda nas sedes das empresas IESA, Galvão Engenharia, Camargo Correa, OAS, UTC/Constran, Odebretch, Mendes Júnior e Engevix. Mandatos de busca também foram expedidos em nome de funcionários da Camargo Correa, OAS, Mendes Junior, Engevix e Galvão Engenharia, UTC e IESA.

O público, o privado e o comum na cidade do #Recife

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De hoje até a próxima quarta-feira acontece na sede Derby da Fundação Joaquim Nabuco o Seminário Urbanismo, mídia e mobilização popular: pensando o Recife a partir do #OcupeEstelita. Para quem ainda não compreendeu as mobilizações populares recentes em torno do Cais José Estelita é uma boa oportunidade. Mas é sobretudo uma boa ocasião para ouvir diferentes perspectivas sobre as causas, os personagens, as esperanças, as ameaças, os afetos e a produção de riqueza em torno da guerra em torno do cais.

Assim, nessa segunda, a programação a exibição de vídeos sobre #OcupeEstelita seguida de debate. Acontece no Cinema da FUNDAJ e a atividade será coordenada por Pedro Severien (FUNDAJ), com apresentação de Ernesto de Carvalho. Na sequência acontece o primeiro seminário, cujo tema é Direito à cidade, diversidade de manifestações, uma discussão sobre as manifestações e mobilizações que reivindicam participação popular nas decisões que envolvem o desenvolvimento das cidades. Essa turma vai tratar da emergência dos “direitos urbanos”, do direito à manifestação, de novas formas de atuação política, das possíveis “leituras” sociais de mobilizações populares como o #OcupeEstelita. Na escalação dessa mesa, Érico Andrade (UFPE: Filosofia), Liana Cirne (UFPE: Direito, Movimento Direitos Urbanos), Ivana Driele (Movimento #OcupeEstelita), Maria Eduarda da Mota Rocha (UFPE: Sociologia), com mediação de Edneida Cavalcanti (FUNDAJ).

Na terça o tema é A cidade que se pensa: planejamento urbano transparente e inclusivo, uma discussão sobre o papel e processos do planejamento urbano no Recife. Na agenda do time que está escalado, participação e “escuta social” no planejamento urbano da cidade, o urbanisno na agenda pública, a repercussão de movimentos como Direitos Urbanos e mobilizações como o #OcupeEstelita. A escalação da mesa é a seguinte: Lucas Alves (Movimento Direitos Urbanos), Tomás Lapa (UFPE: Desenvolvimento Urbano),Evelyne Labanca (Instituto Pelópidas Silveira), Amélia Reynaldo (UNICAP: Arquitetura e Urbanismo, Conselho de Arquitetura e Urbanismo-CAU), com mediação de Cristiano Borba (FUNDAJ).

E na quarta o debate tratará do tema Mídia, mobilização popular e liberdade de expressão, uma discussão sobre o papel das mídias (dos meios massivos às redes sociais) nas manifestações e mobilizações populares que reivindicam participação no planejamento urbano do Recife. Midiatização e política, Agenda midiática e agenda pública são pontos importantes que serão colcoados na roda. Os expositores nesse dia serão Marcelo Pedroso (Cineasta, Movimento #OcupeEstelita), eu (representando a UNICAP), Paula Reis (UFPE: Comunicação), Juliano Domingues (Comissão de Ética do SINJOPE, UNICAP:Comunicação), com mediação de Patrícia Bandeira de Melo (FUNDAJ).

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O público, o privado e o comum na cidade do Recife

No meu entendimento a experiência do Movimento #OcupeEstelita tem permitido que a cidade discuta a privatização do que é considerado em termos jurídicos “público” – o ar a água, os sistemas de gestão da vida, os serviços públicos, os espaços públicos. Fazemos isso bem aqui e um exemplo recente é a Reserva do Paiva.

Mas essa alterantiva também se coloca a um tipo de expropriação muito sutil: expropriações estatais que ocorrem em nome de um “público” abstrato, e que se fundamenta jurídica e discursivamente por um “interesse geral, público ou coletivo”.

Nesse sentido, o Estado-nação e o mercado são expressões da mesma expropriação do comum. É preciso coragem para afirmarmos de forma categórica e contínua que o #OcupeEstelita e congêneres desafiam dicotomias clássicas da modernidade, como indivíduo/coletivo; interesse privado/interesse público; direito subjetivo/direito objetivo; sujeito/objetivo).

Aos que continuarem à frente da empreitada deverá se impor diversos desafios e tarefas – uma das primeiras será questionar o modelo neoliberal que tomou conta do Estado e da própria formação de nossos gestores e que estipula que, para ser produtivo, o “comum” precisa ser privatizado e ter uma gestão também privada.

Uma outra tarefa que se impõe é justamente a apropriação “pública” do comum e o questionamento da operação de alienação das pessoas, coletivos, grupos, sindicatos, cooperativas, partidos, associações, indivíduos isolados que participam da produção desse comum – é um afastamento que acontece através da abstração do interesse geral.

Os últimos exemplos de apropriação do comum em Recife, na Região Metropolitana (em particular na sua orla) e em todo o estado de Pernambuco mostram quão ineficiente o controle jurídico público tem sido.

Portanto, essa perspectiva, de pensar o #OcupeEstelita associado à produção do comum se coloca duplamente em oposição e em disputa tanto às formas de expropriação públicas quanto as privadas, ao mesmo tempo que arremete contra as formas de gestão que separam a multidão da riqueza social por ela produzida.

Toda essa discussão não somente tem a ver com o tema Mídia, mobilização popular e liberdade de expressão, no dia da programação em que eu vou participar. Mais do que essa conexão, relativamente óbvia, a produção do comum que se coloca como um eixo fundamental do movimento habita de forma radical o trabalho de comunicação do movimento: o trabalho de produção do comum no que se refere à comunicação tem colocado em prática, de forma muito virtuosa, os questionamento às dicotomias a que me referi acima pois foi capaz de mobilizar o interesse geral de forma inédita na cidade.

Pensar cada um dos envolvidos no #OcupeEstelita e mesmo aqueles que não se envolveram ou nem souberam do que estamos discutindo, é pensar singularidades que de uma forma ou de outra, trabalham juntas, cooperam na produção social biopolítica. Esse interesse públco dificilmente poderá cair nas nas mãos de uma burocracia.

Estarei sendo muito otimista?

Infelizmente não vou poder comparecer a todos dos dias do seminário. De qualquer forma vai ser uma boa conversa.

Pesquisas condenam Projeto Novo Recife

 

Luiz Carlos Pinto
lula_pinto@riseup.net

Afora os questionamentos legais e éticos do Projeto Novo Recife, pouca gente tem dado atenção aos estudos sobre os impactos do empreendimento. Ao menos duas pesquisas, concluidas e publicadas no primeiro semestre deste ano, confirmam o prejuízo ambiental, urbanístico e cultural que o empreendimento pode causar à capital de Pernambuco. Em ambos os estudos – uma dissertação de mestrado e uma tese de doutorado – se verifica que a intervenção pretendida pelo Consórcio Novo Recife é prejudicial aos moradores. Os estudos prevêem aumento da temperatura do centro, acúmulo de partículas poluentes, além da perda de ventilação imposta pela altura das 12 torres de até 40 andares previstas, limitação da mobilidade urbana no centro, restrição do acesso à paisagem e apagamento de elementos históricos do perfil da cidade.

A pesquisa intitulada “Influência da forma urbana na ventilação natural: um estudo de caso no Cais José Estelita, Recife”, defendida em maio deste ano Joana Pack Souza, teve como objetivo principal analisar as modificações que ocorrem na ventilação natural a partir da alteração da forma urbana. O trabalho considerou especificamente as implicações do adensamento construtivo sobre a ventilação urbana no bairro de São José (Recife), onde está localizado o Cais José Estelita.

Com base em seis modelos de ocupação urbana do Cais, a pesquisadora concluiu, principalmente, que os edifícios-garagem formam uma grande barreira contínua ao nível do pedestre, reduzindo a taxa de renovação do ar e criando, consequentemente, um calor excessivo e um grande acúmulo de fragmentos poluidores. Ou seja, gera-se mais calor num ar mais poluído. Além disso, a grande barreira construída faz com que o vento seja canalizado para as ruas transversais. Por conta disso, nessas áreas, o pedestre se submetido a ruas desaconfortáveis – não porque o calçamento está esburacado. É que o vento nessas ruas será muito forte, além do que já verificado em ruas contíguas dos pontos mais adensados do bairro de Boa Viagem, por exemplo.

Para chegar a esses resultados, a pesquisa passou por duas etapas. Primeiramente, foi feito um estudo bibliográfico sobre urbanismo bioclimático, sustentabilidade, forma urbana e ventilação natural no meio urbano. Em seguida, foi executada uma pesquisa experimental com simulação computacional dos seis modelos de ocupação urbana do Cais José Estelita para entender quais seriam os mais propícios e benéficos ao conforto térmico e à ventilação da cidade. Esses modelos apresentaram variação dos afastamentos e da altura dos edifícios. No modelo que permite melhor temperatura e ventilação, os prédios são mais afastados um do outro. Além disso, a simulação indica ainda a necessidade de afastamentos verticais, ou seja, com pilotis e pavimentos vazados.

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Aulão no CAC da UFPE discute Ocupação do Cais José Estelita #ocupeestelita

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O primeiro aulão da Universidade Federal de Pernambuco para discutir aspectos da ocupação do Cais José Estelita foi um sucesso. Cerca de trezentas pessoas, entre estudantes, funcionários e professores da UFPE pararam entre as 16h e as 19h no hall de entrada do Centro de Artes e Comunicação para ouvir análises de urbanistas e arquitetos sobre o Projeto Novo Recife; também foi a oportunidade para que alguns acampados – a maior parte estudantes da instituição – compartilhassem suas experiências. A ocasião ainda serviu para a projeção de imagens gravadas durante o ataque do Batalhão de Choque que removeu os acampados do pátio interno do Cais, no dia 17 de Junho.

O aulão foi uma oportunidade para esclarecer diversos aspectos dos impactos causados pela iniciativa do Consórcio Novo Recife, bem como articular interessados em contribuir com o movimento. Ao longo das diversas manifestações dos pesquisadores ao menos duas chamaram mais a atenção. A professora Lúcia Vaz, do departamento de arquitetura, apresentou alguns resultados de sua tese de doutorado, recém-finalizada, sobre os ipactos causados à baisagem do Bairro de São José e de Santo Antônio. Segundo a professora, o Projeto Novo Recife é nocivo aos bairros do centro-sul por quatro aspectos principais.

“Em primeiro lugar o desrespeito e a agressão arquitetônica com o sitio histórico. Infelizmewnte o Plano DIretor da cidade permite que se vertizalize naquela área, que possui o maior acervo barroco da cidade. Além disso é a região da capital que possui maior acervo arquitetônico do início da cidade”, afirma.

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Um segundo aspecto levantado pela pesquisadora é a escala urbana que o Projeto Novo Recife impõe. “O gabarito (altura dos prédios) é indecente do ponto de vista da arquitetura, da forma, da visibildiade, da morfologia, do conforto térmico e da ética”, explica. Um terceiro aspecto problemático, segundo a professora é o uso e a apropriação pública do espaço urbano. “Não há uso misto previsto realmente no Projeto Novo Recife. Uso isto é o que encontramos no Bairro de São José, onde você encontra habitações, comércio, bancos, escola. O uso misto ou o que o Consórcio nomeia como tal é formado por hotéis fechados, não existe salvaguarda pública do espaço. Qualquer pessoa pode até se enganar com a quantidade de área verde disponível, mas toda ela é cercada, servindo assim mais ao edulcoramento das habitações privadas previstas no Projeto original”.

A professora ainda salientou que o Projeto Novo Recife não leva em consideração as conexões com a malha urbana. “Para entender isso é fácil. Quando visitamos a casa de alguém nós devemos respeitar essa casa. O que nós temos aqui é uma casa com quatro séculos com aspectos pedculiares de sociabilidade, habitação e mobilidade que não estão sendo respeitados pelo Consórcio.

Já o professor Tomás Lapa questionou o processo de esvaziamento das instâncias de planejamento da prefeitura. Segundo ele, esse é um projeto que se verifica nos últimos 10 anos e que na atual gestão se consolidou. “Como é possível que projetos dessa natureza (Novo Recife) não sejam trataod por uma Secretaria de Planejamento, mas por uma Secretaria de Mobilidade? É a maior expressão da falta de planejamento pública, que passa a ser tocada pela inciativa privada, afirmou.

Sobre esse quesito, o professor foi mais longe:

“Se antes a estratégia do capital imobiliário era de promover uma ocupação num ritmo acelerado, lote por lote, as operações passam a ser agora mega-operações. Eles não se contentam mais com o lote a lote que a legislação antes favorecia. Eles agora querem trabalhar com as glebas remanescentes. As glebas que restaram do território urbano: o quadrilátero do bairro de Santo Amaro, a vila Naval em Olinda, a arena do Sport, a Ilha do Zeca. São áreas vizadas pelo capital imobiliário que atualmente são objetos de mega-operações”, afirmou.

#ocupeestelita: democracia em cheque na cidade do Recife

(escrevi esse artigo há duas semanas para a Carta Maior, por isso está um pouco desatualizado)

Mídia Ninja

Mídia Ninja

Em 2014 a cidade do Recife está expondo de maneira tão virtuosa quanto inesperada o escândalo da separação entre desenvolvimento capitalista e democracia. O front que explicita essa dissociação – marca da história brasileira em geral e a da capital pernambucana em particular –, é a destinação de uma área de 10 hectares (o Cais José Estelita, na bacia do Pina, no centro da cidade), para ser usado em um empreendimento imobiliário orçado em R$ 800 milhões e que prevê a construção de 12 torres com até 40 andares. O Projeto Novo Recife, tocado pelo Consórcio Novo Recife (formado pelas construtoras Moura Dubeux, Queiroz Galvão, G.L. Empreendimentos e Ara Empreendimentos), é objeto de cinco ações judiciais que questionam sua legalidade. Mas o debate no momento já está para além da questão urbana e da saúde futura da cidade. Esse front expôs o círculo vicioso da velha política em Pernambuco: o uso da violência institucionalizada na defesa de interesses privados e de fins políticos particularistas, sem receio de se identificar com formas autocráticas de autoprivilégio em detrimento do interesse público.

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Até quando deixaremos o Estado gerir as escolas públicas?

Tod@s falam – mídia, políticos, profissionais da educação, economistas, etc. – à exaustão da importância da educação para o “desenvolvimento” do país. Outro dia ouvi, numa cerjevada, um amigo estranhar a palavra: ele a partiu: des / envolver: coibir qualquer possibilidade de envolvimento. Gostei. E pensei automaticamente que o menos importante seria saber se a partição do significante era etimologicamente correta. Para mim ela é politicamente produtiva – bem diferente de politicamente “correta” (mas isto discutiremos em outra oportunidade). Tod@s também falam, como um clichê que dói, pelo menos aos meus ouvidos, da importância de formarmos “cidadãos críticos”. O fato é que, críticos ou não; proativos ou talhados para a repetição, dóceis ou inquietos; com competências básicas ou sem competências básicas, a escola tem historicamente funcionado como uma fábrica de produção sob medida de trabalhadores e eleitores. A invenção da fábrica moderna formalizou a economia, racionalizou seus procedimentos técnicos, direcionando nossos afetos e valores para a maximização do lucro para o capital. O liberalismo inventou, pari passu com o processo de desterritorialização fabril, indivíduos formalmente iguais, sem pertencimento local, trabalhadores-eleitores com discernimento “próprio”, cujas consciências teriam que ser formadas num projeto nacional de nação.
É nesse contexto, sob o signo da superioridade hierárquica da ciência e da noção laboratorial de experiência, que os sistemas nacionais de ensino na Europa se consolidam na segunda metade do século XVIII. A escola, como defendia John Dewey – principal referência mundial do escolanovismo em nível mundial (mestre e inspirador de Anísio Teixeira) –, deveria conduzir a experiência dos estudantes de maneira a consolidar um projeto moderno de democracia liberal. A funcionalidade entre educação e capital é mais que flagrante. Economia capitalista; escola capitalista. Ponto? Movimentos sociais e partidos (participantes ou não do sistema eleitoral) que têm o socialismo como horizonte político precisam se render a essa pretensamente fatal “função” da escola? Precisam esperar (ao pé de uma parede sem porta, para usar uma imagem de Fernando Pessoa), sob a crença de um momento emancipador fundante, a destruição do regime capitalista, para praticar uma educação radicalmente contra-hegemônica? Que retome/invente maneiras alternativas de estar no mundo? Outras cosmovisões? Penso que não.

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Para se informar: coleção de posts sobre o #ocupeestelita

Começando agora uma juntada de posts que explicam, para quem ainda não vem acomoanhando o processo, a ocupação em andamento do Cais José Estelita.

Democracia viva: por que ocupar o Estelita?
Galpões destruídos só são sinônimos do atraso quando a sua destruição traduz um modo de pensar a cidade de maneira atomizada; como se fosse possível que cada construção, realizada isoladamente e com interesses distintos, pudesse, de forma espontânea, se harmonizar com o resto da cidade ou mesmo se harmonizarem entre si. O Recife é a demonstração de que isso não é possível. O caos no trânsito, a falta de saneamento, o entupimento das encanações e os esgotos que jorram a lama representam a falta de planejamento e de um crescimento absolutamente desordenado porque está entregue à iniciativa privada. Cada construção, uma estrutura autor-referente, uma muralha de concreto e um isolamento da cidade. Ilhas dentro das ilhas: mutilação. Mais.

Recife pra quem?
Na noite de ontem, a população do Recife foi surpreendida com a notícia, nas redes sociais, da demolição dos armazéns do Cais José Estelita, no centro da cidade. Esta área, de mais de 100 mil m², pertencia à Rede Ferroviária Federal e foi arrematada à União por um grupo de empresas em leilão realizado em 2008. O consórcio formado por Moura Dubeux, Queiroz Galvão e GL Empreendimentos pretende implementar um megaprojeto imobiliário na área, o chamado projeto Novo Recife, que prevê a construção de torres residenciais e comerciais, totalizando 14 prédios com cerca de 40 andares. Mais.

#OcupeEstelita, #ResisteEstelita: a (re)significação constante do Direitos Urbanos (e do Cais)
O movimento de ocupação do Cais José Estelita é um sucesso. Num lugar antes desconhecido da grande maioria, um sonho se realiza ao menos em experimento: um imenso espaço perdido há anos no discurso do abandono, uma vastidão impensada, ganha, na prática dos ocupantes de simplesmente ocupar, o sentido que ele sempre poderia ter tido: o de ser o espaço de confluência de todos os cantos da cidade ao receber, acolher e misturar as pessoas. Um lugar que antes era apenas o atrás do muro e dos galpões, o espaço abandonado, de ninguém, passa ser um experimento simbólico, mas real e palpável, do seu potencial embutido, agora ainda esgaçado pela ameaça da ganância dos interesses privados tragicamente mancomunados com o poder público. Mais

Ciclotela do Coque
O Museu da Beira da Linha do Coque foi criado pelos membros da comunidade para o acolhimento e ativação da história oral do bairro do Coque, em Recife (PE). O coração do acervo é o cadastro dos Contadores e Contadoras de Histórias do Coque e a coleção de seus depoimentos em vídeo. Nosso museu é, desde sua concepção, itinerante. Ele quer estar vivo, na rua. Para dar suporte a sua mobilidade dentro e fora do bairro, sonhamos começar com uma estrutura de fácil condução que acoplasse um sistema de projeção de imagem e som. Assim surgiu a Ciclotela do Coque, um triciclo adaptado que exibirá a história da nossa comunidade. Os 16 primeiros Contadores e Contadoras de Histórias do Coque entrevistados por Rildo Fernandes e a equipe do Museu. Mais.

Invento o cais
O cais José Estelita é um nome quase estranho pra mim. A paisagem, não. O cais era inevitável no caminho da praia, quando ainda não havia tubarões e a gente passava uma manhã inteira de sábado entrando e saindo da água. Na volta pra casa, era lá pelo cais que começava a disputa da família pela ocupação do banheiro, pois urgia tirar aquele sal do corpo (naquele tempo havia mais sal no mar). O cais era feio, abandonado até, mas era. Mais.

Neste domingo, no #ocupeestelita, exposição Invisibilidades da Copa em Pernambuco
Neste domingo, quem for ao Cais José Estelita terá a oportunidade de acompanhar uma mini-exposição com 28 imagens dos fotógrafos Anderson Freire e João Velozo e do jornalista Eduardo Amorim, que abordam o drama dos removidos para as obras da Copa do Mundo na Região Metropolitana do Recife. Mais.

A cidade tem afetos e pertencimentos
Há uma busca pela acumulação de grana que desfaz a história e inquieta. Não há transparência e existem articulações frequentes de projetos individualistas com o poder público. As promessas são muitas e almejam significar compromissos para construção do novo. A velha questão da modernidade volta ao debate e as máscaras do progresso disfarçam discursos. A cidade sofre ataques constantes da especulação imobiliária que deixam desconfianças permanentes. Os investidores ganham , muitas vezes, com seus ares de seguidores de filantropias que mudarão o chamado atraso urbano. Mais.